LONDRES - Cientistas nos Estados Unidos desenvolveram um útero artificial a partir de uma bolsa preenchida por fluido, conhecida como um suporte extrauterino, que pode transformar o tratamento de bebês que nascem extremamente prematuros, aumentando significativamente as chances de sobrevivência.

Em estudos pré-clínicos com cordeiros, os pesquisadores conseguiram simular o ambiente do útero e as funções da placenta, dando a prematuros a oportunidade crucial para desenvolver os pulmões e outros órgãos.

Aproximadamente 30 mil bebês, somente nos Estados Unidos, nascem prematuros em estado crítico -- entre 23 e 26 semanas de gestação, disseram os pesquisadores a repórteres por telefone.

Nesse período, um bebê pesa um pouco mais do que 500 gramas, seus pulmões ainda não conseguem lidar com o ar e suas chances de sobrevivência são mínimas. A taxa de morte é de até 70%, e aqueles que sobrevivem enfrentam deficiências por toda a vida.

- Esses bebês têm uma necessidade urgente de uma ponte entre o útero da mãe e o mundo exterior - disse Alan Flake, um cirurgião especializado no Hospital de Crianças da Filadélfia que liderou o desenvolvimento do novo dispositivo.

O objetivo da equipe, disse Flake, era desenvolver um sistema extrauterino pelo qual bebês extremamente prematuros poderiam ficar suspensos em câmaras preenchidas por fluido por algumas semanas vitais até chegarem à idade de 28 semanas, quando suas chances de sobrevivência aumentam drasticamente.

Pode demorar mais 10 anos, mas até lá Flake espera ter um dispositivo licenciado no qual bebês que nascem muito prematuramente têm a chance de se desenvolver em câmaras preenchidas por fluido, em vez de incubadoras com ventilação mecânica.



Fonte: http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/cientistas-desenvolvem-utero-artificial-para-ajudar-bebes-prematuros-21254670

 

 

O medicamento sofosbuvir, antiviral usado contra o vírus da hepatite C, é capaz de inibir a replicação do vírus causador da zika. Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) comprovaram essa ação em diferentes sistemas celulares. Os dados gerados na pesquisa in vitro, que foi publicada no periódico Scientific Reports [1], dão apoio para a continuação da pesquisa em modelo animal e, futuramente, para a condução de ensaios clínicos.

O vírus Zika (ZIKV) é um membro da família Flaviviridae, que abrange outros agentes de importância clínica, por exemplo, os vírus da dengue (DENV), do Oeste do Nilo (WNV), da encefalite japonesa (JEV) e da hepatite C (HCV).

O sofosbuvir é uma droga aprovada para uso no tratamento da hepatite C. Ela tem como alvo a RNA polimerase viral, ou seja, a enzima responsável pela síntese de RNA.

"Sabendo que essa proteína é uma das mais conservadas entre os membros da família Flaviviridae, nós investigamos se esse agente também conseguiria atuar sobre a RNA polimerase do ZIKV, e os resultados foram promissores", disse ao Medscape o autor da pesquisa, o virologista Thiago Moreno Lopes e Souza, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS) da Fiocruz.

 

Durante a pesquisa foram utilizadas diferentes culturas de células: neuroblastoma humano (SH-Sy5y), célula de rim de hamster (BHK-21), célula de rim de macaco-verde africano (Vero) e de hepatoma humano (Huh-7), bem como células-tronco neuronais (NSCs) e organoides cerebrais – estruturas que representam um modelo tridimensional de cultura de células usado para o estudo de microcefalia associada ao ZIKV[2].

A ribavirina e o interferon foram os fármacos utilizados como controle para assegurar que, de fato, o sofosbuvir teria atividade antiviral contra o ZIKV. Lopes e Souza contou que realizou, em paralelo, experimentos com a ribavirina e com o interferon, pois eles são sabidamente ativos contra praticamente qualquer vírus, inclusive o da zika. Com isso, foi possível ter um comparativo para validar a ação do sofosbuvir. É interessante notar, no entanto, segundo o cientista, que ribavirina e interferon, embora apresentem atividade antiviral contra o ZIKV, têm aplicação clínica limitada no tratamento da zika, especialmente porque são medicamentos que implicam riscos para gestantes[3]. Em contrapartida, o sofosbuvir é uma droga aprovada como classe B pela Food and Drug Administration (FDA) e categorizada pela agência regulatória Therapeutic and Goods Administration (TGA), da Austrália, como classe B1, ou seja, ela foi utilizada por um número limitado de gestantes e mulheres em idade fértil e não foi associada a efeitos nocivos[1]. Esse dado foi também um fator que motivou Lopes e Souza e colegas a investigarem a ação do sofosbuvir sobre o ZIKV.

A pesquisa mostrou que o medicamento inibiu a replicação do vírus causador da zika nas células de hepatoma, neuroblastoma, nas células-tronco neuronais, nos organoides cerebrais e nas células de rim de hamster. Tomando essas últimas como comparativo (BHK-21), os autores identificaram que a potência da atividade antiviral foi cinco vezes maior nas células de hepatoma e duas vezes maior nas células de neuroblastoma.

Como o sofosbuvir foi desenvolvido para o tratamento da hepatite C, doença hepática, a maior potência verificada nas células de hepatoma era algo esperado. Segundo Lopes e Souza, foi especialmente importante notar que esse antiviral tem atividade contra a replicação do Zika em várias células de origem neuronal, tanto no neuroblastoma quanto nas células-tronco neuronais e nos organoides cerebrais.

"Quando uma pessoa é infectada pelo ZIKV, certamente esse vírus não vai diretamente para o cérebro. Provavelmente, ele replica em tecidos periféricos até atingir quantidade suficiente para chegar efetivamente ao cérebro. Nosso resultado mostra que tanto em um órgão como o fígado, que tem um papel periférico, quanto em células do sistema nervoso central, o sofosbuvir atua contra o vírus Zika", disse ele.

A inibição da replicação viral só não foi detectada nas células Vero. Embora o grupo não tenha investigado os mecanismos por trás desse achado, Lopes e Souza aponta três hipóteses possíveis: (1) o sofosbuvir pode não entrar na célula Vero; (2) o medicamento pode entrar, mas a célula pode não contar com as enzimas necessárias para converter o medicamento em sua forma ativa e (3) como a célula Vero expressa uma grande quantidade de glicoproteína-P, uma proteína da membrana envolvida na expulsão de algumas drogas, o sofosbuvir pode entrar na célula, mas ser imediatamente expulso dela [4]. De toda forma, o pesquisador destaca que os possíveis fatores causadores da inatividade do medicamento são inerentes à célula de rim do macaco-verde africano, e não se repetem nos outros modelos analisados, o que, portanto, não compromete os resultados identificados.

A pesquisa mostrou também que o sofosbuvir inibiu mais a infectividade do vírus da zika do que a produção de RNA viral. Foi visto ainda, a partir de sequenciamento, que nas células tratadas com esse medicamento as sequências de RNA do ZIKV tiveram taxa de mutação (troca da base nitrogenada adenina por guanina) aumentada.

"Esses achados indicam que o fármaco, além de inibir a RNA polimerase, induz produção de resto de RNA viral que tem defeitos que acabam por comprometer a capacidade dele de infectar novas células", explicou Lopes e Souza.

 

Os resultados positivos do sofosbuvir quanto à ação de inibição da replicação do ZIKV já foram corroborados em modelos animais. O pesquisador da Fiocruz disse que um grupo de pesquisas grande vem dando continuidade a essa investigação, e já foi possível encontrar resultados promissores também em experimentos feitos com camundongos. No entanto, esses dados ainda estão sendo compilados para passar por tratamento estatístico e serem então submetidos à publicação. Esse é mais um passo para que a pesquisa progrida para ensaios clínicos, o próximo objetivo.

 

A pesquisa em foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento e Pesquisa (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). Os autores declararam não possuir conflitos de interesse.

 

Fonte: http://portugues.medscape.com/verartigo/6501128

 

 

 

Uma análise epidemiológica temporal retrospectiva dos transtornos neurológicos associados ao vírus Zika (ZIKV) no Brasil[1], publicada esta semana como uma carta ao editor no periódico New England Journal of Medicine (NEMJ), traz resultados surpreendentes e ainda sem explicação.

Os autores apresentam dados das cinco regiões do Brasil mostrando que o número de casos suspeitos de zika começou a aumentar na região Nordeste em março de 2015, e nas outras regiões do país apenas no final do mesmo ano, com a doença se disseminando 2016. No ano de 2015, a dispersão do ZIKV esteve associada com um aumento na incidência de distúrbios neurológicos, especialmente Síndrome de Guillain-Barré (GBS) e microcefalia.

 A incidência de microcefalia teve um pico em novembro 2016 (semana 47), 23 semanas após o início das epidemias de ZIKV e GBS, em média. Os autores especulam que se houve um atraso de três semanas entre a exposição dos pacientes ao ZIKV e o desenvolvimento de GBS (período habitual de incubação mais atraso habitual na notificação), a infecção que levou a microcefalia teria acontecido, em média, 12 semanas após a concepção.

 A surpresa do trabalho, no entanto, está na analise de 2016. Quando a zika e a síndrome de Guillain-Barré ressurgiram no Nordeste do Brasil, os autores anteciparam para microcefalia uma réplica do ano anterior. Mas isso não aconteceu.

 

Há três explicações possíveis, segundo os autores, todos pesquisadores do Ministério de Saúde do Brasil, da Fundação Osvaldo Cruz, da Organização Pan-americana da Saúde e da Organização Mundial da Saúde. A primeira é de que as infecções de 2016 que foram atribuídas ao ZIKV, e relacionadas aos casos de GB, tenham sido, na realidade, causadas por algum outro arbovírus. A segunda hipótese aventada é de que a infecção pelo ZIKV, apesar de necessária, não seja suficiente para, sozinha, causar a microcefalia. Por último, que o medo da microcefalia tenha diminuído a natalidade na região, seja via diminuição das taxas de concepção, seja por aumento do número de abortos – como a prática é ilegal no Brasil, é, portanto, impossível de quantificar.

"Utilizando os dados coletados, mostramos que provavelmente há um nexo consistente entre ZIKV, GBS e microcefalia na região mais afetada, o Nordeste, no ano de 2015. Digo provavelmente porque temos incertezas em nossos dados e em nossa análise", respondeu por email ao Medscape Christopher Dye, Diretor de Estratégia, Política e Informação da OMS, e um dos autores do estudo.

"Das três hipóteses, a que se apresenta mais possível é a primeira, que os casos reportados como zika em 2016 sejam, na realidade, de chikungunya. Mas as três hipóteses não são mutuamente excludentes, pode ser uma combinação de todas. Ou podem haver outros fatores sobre os quais não tenhamos pensado ainda. Nesta fase, nada pode ser descartado", afirmou Dye.

Segundo o Dr. Artur Timerman, o estudo "ressalta a carência dos métodos diagnósticos ainda vigentes no Brasil".

"O diagnóstico sorológico que permita distinguir dengue de zika é ainda muito problemático. Alia-se a isso, a grande dificuldade de disponibilização do teste sorológico para diagnóstico de chikungunya, extremamente difícil de se conseguir na rede pública".

Questionado sobre a segunda hipótese aventada pelos autores do estudo –  de que a infeção por ZIKV seja necessária, mas não suficiente para causar, sozinha, a microcefalia –  o Dr. Jean Pierre Schatzmann Peron, um dos pesquisadores que demostrou a associação entre o Zika e microcefalia em modelo experimental respondeu:

"Interessante, mas acho difícil. Como explicar os casos de microcefalia em outros países? Eles sabem que o Nordeste é o epicentro da crise, mas há 49 casos de microcefalia nos Estados Unidos, e também muitos na Colômbia. E os casos que se observaram de forma retrospectiva na Polinésia francesa? Que cofator é esse que é tão comum em lugares tão distantes um do outro?" questionou o pesquisador.

A questão da natalidade, segundo ele, é muito difícil de avaliar. As mulheres pararam de engravidar? Os casais usaram mais preservativos ou anticonceptivos orais? Houve mais abortos? Essas hipóteses são estudadas atualmente[2] com muita dificuldade. O Dr. Peron disse acreditar que dificilmente haja uma explicação única.

 

"Ficamos felizes com o resultado deste trabalho, mas alguma coisa está acontecendo, porque os números de GBS se mantiveram".

Fonte: http://portugues.medscape.com/verartigo/6501131

 

 

Em artigo publicado nesta quarta (19/4), o reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher, faz um convite para a participação na Marcha pela Ciência e analisa a conjuntura política e econômica do país. O evento mundial terá sua edição no Museu Nacional da UFRJ no próximo sábado, das 10h às 14h, na Quinta da Boa Vista e tem apoio nacional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Confira a íntegra do texto:

Marcha pela Ciência: um gesto contra a ofensiva irracionalista no mundo

O Brasil caminha na contramão do que seria a melhor estratégia para enfrentar uma crise econômica: investir em conhecimento científico, pesquisa e inovação. Não nos faltam exemplos de povos que também passaram por momentos dramáticos nesse sentido, mas que apostaram no fortalecimento das universidades, dos institutos públicos de pesquisa e do aparato de Ciência e Tecnologia, por meio dos blocos de poder que se reconfiguravam no calor das lutas sociais.

Foi assim no contexto da Revolução Francesa, em que as grandes Écoles e universidades foram apoiadas vigorosamente; na criação da Universidade de Berlim, que se deu em um contexto de severa crise e de guerra; e na crise de 1929, em que a universidade estadunidense foi ampliada progressivamente e a pesquisa foi fortalecida com forte apoio estatal. Países como a China respondem à crise econômica mundial com mais investimentos em ciência.

O dramático quadro da economia no Brasil ganhou novos contornos com o agravamento da crise política. Como corolário, é tomado ainda por uma tectônica crise de legitimidade do Executivo, da grande maioria do Legislativo, de setores do Judiciário e de vastos segmentos da grande imprensa.

Diante de um contexto tão desolador, em que o futuro torna-se carregado de incertezas, decisões erradas podem comprometer de modo duradouro o porvir. Entre as muitas decisões que estão sendo tomadas contra os direitos humanos, é preciso destacar a desregulamentação e a flexibilização dos direitos trabalhistas, a inviabilização do sistema previdenciário, em prol da previdência por capitalização vinculada aos bancos, e o estrangulamento dos recursos para as universidades e os órgãos de fomento.

Embora aparentemente desconexas, as medidas que rebaixam os direitos do trabalho evidenciam que o país estará cada vez mais inserido em circuitos produtivos baseados nas atividades laborais simples, prescindindo, por isso, de um robusto sistema universitário e de ciência e tecnologia.

A planilha orçamentária das universidades federais em 2017 é 13% inferior ao já exíguo orçamento de 2016, ano em que muitas universidades não puderam pagar suas contas básicas. Os cortes e contingenciamentos efetuados no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) em 2017 tornam o seu orçamento equivalente a menos da metade do existente em 2005, e ainda com o agravante de que a ciência cresceu de modo importante e o ministério não incluía a área da Comunicação: é devastador.

E novos contingenciamentos rondam as universidades e os laboratórios e grupos de pesquisa. A rigor, conforme as previsões oficiais, em 2017 e 2018 não haverá recursos novos para pesquisa, descontinuando investigações e grupos de pesquisa, em domínios cruciais como arboviroses, energia, agricultura, saúde, educação e cultura. A retomada não será simples.

São muitos os motivos que devem levar a sociedade a apoiar a Marcha pela Ciência, no próximo dia 22 de abril. Mais de 500 cidades do mundo inteiro estão mobilizadas para defender uma produção científica independente e indispensável para a vida dos povos. No Rio de Janeiro, a manifestação acontecerá no Museu Nacional da UFRJ e nossas universidades, professores, estudantes, técnicos-administrativos e demais trabalhadores devem se animar a participar do movimento.

Essa manifestação entusiasmada e crescente é inspiradora e enche de esperança os que se dedicam de corpo e alma à ciência, à tecnologia, à arte e à cultura. Além da luta contra o desmonte da universidade e da pesquisa, é um gesto contra a ofensiva irracionalista que insiste em turvar o futuro das nações. É fundamental que todos apoiem e participem das atividades e, também, das outras manifestações públicas programadas pelos setores democráticos em prol dos direitos sociais e, em particular, do desenvolvimento da imaginação criadora das crianças e jovens que protagonizam a vitalidade das instituições educacionais!

Roberto Leher

Reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

Cidade Universitária, 19/04/2017

 

Fonte: https://ufrj.br/noticia/2017/04/19/marcha-pela-ciencia-gesto-contra-ofensiva-irracionalista-no-mundo

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